[A mente da iluminação ou Bodhichitta é o voto de atingir a iluminação com o fim único de libertar todos os seres do sofrimento e de conduzi-los ao estado de Buddha. Trata-se também do conjunto de práticas que permitem a realização deste voto. Os capítulos 1, 2 e 3 explicam como desenvolver a Bodhichitta. Os capítulos 4, 5 e 6 explicam como mantê-la. Os capítulos 7, 8 e 9 explicam como aumentar a Bodhichitta. Finalmente, o capítulo 10 trata da dedicação dos méritos.]
[1] Homenagem aos Sugatas dotados do Dharmakaya. Homenagem aos seus filhos e a todos os que são veneráveis. Eis aqui, brevemente exposta, e segundo a tradição, a prática espiritual dos filhos dos Buddhas.
[Sugata, "chegado à felicidade", é um epíteto dos Buddhas ou "iluminados". Dharmakaya, "corpo absoluto", é um dos três corpos dos Buddhas, juntamente com o corpo de manifestação (Nirmanakaya) e o corpo de fruição (Sambhogakaya). Segundo os comentários, o Dharmakaya é considerado aqui como uma qualidade do Buddha. Segundo outros, o Dharmakaya corresponde aos ensinamentos (Dharma) de Buddha, e a frase seria: "Homenagem aos Sugatas [Buddhas], aos seus filhos [Sangha] e ao corpo do Dharma..." Os filhos dos Buddhas são os Bodhisattvas, "seres da iluminação" que progridem até o estado búddhico, aprofundando a sua realização da vacuidade unida à compaixão.]
[2] Tudo o que vou dizer já foi dito antes de mim, que sou fraco escritor. Sem pretensão de ajudar quem quer que seja, é com o intuito de ordenar a minha mente que vou escrever esta obra.
[3] Que ela ao menos sirva para aumentar a torrente da minha fé que favorece o que é bom. E se além disso alguém, parecido comigo, pousar aqui o seu olhar, ser-lhe-á também oferecido bom proveito.
[4] As condições favoráveis são muito difíceis de conseguir, elas que, uma vez encontradas, satisfazem todos os fins do homem. Se desde já não tirarmos proveito desta oportunidade, como poderá ela surgir de novo?
[As dez condições favoráveis são, juntamente com as oito liberdades, indispensáveis se quisermos progredir para a iluminação. As oito liberdades são: [1] não ter nascido nos infernos; [2] no mundo dos fantasmas famintos; [3] no reino animal; [4] entre os semideuses; [5] entre os deuses de longa vida; [6] entre os homens com visões errôneas; [7] em uma época obscura durante a qual nenhum Buddha tenha aparecido; [8] ou com uma deficiência mental que impeça a compreensão do sentido do Dharma. As dez condições favoráveis são: [1] ter uma existência humana; [2] ter nascido num lugar onde o Dharma existe; [3] possuir todas as faculdades físicas e mentais; [4] não agir em contradição com o Dharma; [5] ter fé nos que são dignos dela; [6] é também necessário que um Buda tenha aparecido durante a nossa era; [7] que ele tenha exposto o Dharma; [8] que os seus ensinamentos subsistam; [9] que eles sejam postos em prática; [10] e, enfim, que um mestre espiritual esteja presente para nos guiar.]
[5] Assim como numa noite em que as nuvens adensam ainda mais as trevas, o relâmpago pode às vezes brilhar, também às vezes, pelo poder dos Buddhas, o pensamento dos homens pousa por um breve instante sobre o bem.
[6] Assim, o bem é sempre frágil e o poder do mal tão forte e terrível... se não fosse a Bodhichitta, que outro bem o poderia vencer?
[7] Durante muitos Kalpas os Buddhas meditaram, até que, por fim, viram deste bem as benfazenças que fazem transbordar de alegrias o imenso rio dos seres sencientes, numa inundação de felicidade.
[Segundo a cosmologia buddhista, os mundos (chakravala) estão submetidos a um processo alternativo de formação e dissolução. O período que decorre entre o início de um mundo e a formação do mundo seguinte é chamado de mahakalpa (grande ciclo); este é formado por quatro períodos incomensuráveis (asankhyeya-kalpa) que correspondem às fases de formação, duração e dissolução do mundo, mais o período intermediário de caos que precede a formação de um novo mundo. Cada asankhyeya-kalpa contém vinte antara-kalpas. Um antara-kalpa é o período durante o qual a duração da vida humana, que é de dez anos à partida, cresce até a tingir a duração de um asankyeya-kalpa e de novo decresce até dez anos. O fim de cada antara-kalpa é marcado por sete dias de guerra, sete meses de epidemias e sete anos de fome.]
[8] Quem queira passar além das imensas dificuldades desta vida, afastar todas as dores das criaturas e desfrutar centenas e centenas de alegrias, que jamais abandone a Bodhichitta.
[9] Qualquer infeliz, acorrentado à prisão das existências, é, nesse mesmo instante, proclamado Filho dos Buddhas; hei-lo venerável aos olhos dos deuses e dos homens assim que nele surge a Bodhichitta.
[10] Pegando neste corpo impuro, faz dele a inestimável imagem de ouro que é um Buddha. Por isso, guardai com fervor este elixir alquímico que se chama Bodhichitta.
[11] Ela foi vista e reconhecida de valor supremo pela vasta inteligência dos guias sublimes da caravana humana. Guardai-a firmemente, esta jóia que é a Bodhichitta, oh vós que desejais romper com o fado dos seres sencientes!
[12] Assim como uma árvore que morre ao dar o seu fruto, todos os outros méritos se acabam. Só a Bodhichitta é uma árvore que sempre frutifica e nunca se esgota.
[A árvore referida é uma bananeira-da-terra. A palavra tibetana para esta planta é chushing, que significa "árvore da água". Designa uma planta freqüente na Índia que é oca e morre ao dar o seu fruto.]
[13] O mais execrável dos criminosos, se se apoiar nela, liberta-se nesse mesmo instante, como quem se livra de um grande perigo protegido por um herói. Como pode haver gente inconsciente que não se refugie na Bodhichitta?
[14] Como o incêndio do fim do mundo, a Bodhichitta consome num ápice os maiores erros; os seus infinitos benefícios foram expostos pelo sábio Maitreya a Sudhana.
[Ver o Gandavyuha Sutra.]
[15] A Bodhichitta é dupla; ela é, em suma, o voto da iluminação e o partir para a iluminação.
[16] Elas têm entre si, segundo os sábios, a mesma diferença que há entre querer fazer uma viagem e se colocar a caminho.
[17] O voto da iluminação dá imensos frutos neste mundo, mas não é, ao contrário da partida para a iluminação, uma fonte contínua de méritos.
[18-19] Logo que a mente tenha abraçado com tenacidade o pensamento de libertar a vastidão ilimitada dos seres, mesmo que às vezes se distraia ou dissipe, o fluxo dos seus méritos continua sempre a aumentar, assim como a infinita vastidão do céu.
[20] Isso mesmo explicou Buddha no Discurso das Questões de Subahu, em proveito dos que apenas têm um ideal inferior.
[Subahuparipriccha Sutra; o original sânscrito perdeu-se e foi retraduzido do chinês. É dito neste discurso que, se o voto de libertar os seres impregnar totalmente a nossa mente, os nossos méritos não param de aumentar, mesmo durante o sono ou quando estamos distraídos.]
[21-22] Se aquele que formula o benemérito projeto de curar o simples mal-estar de uns poucos homens adquire um imenso mérito, muito mais adquirirá quem quer libertar a todos de um sofrimento infinito e que a todos quer dotar de infinitas qualidades!
[23] Qual é a mãe, qual é o pai capaz de um voto tão generoso? Qual o deva, qual o rishi, qual o brâmane?
[Os devas são os deuses de longa vida. Os rishis, segundo a tradição hindu, são os sábios inspirados que ouviram a palavra dos Vedas e a transmitiram ao mundo; formariam uma classe distinta entre os deuses e os homens. Os brâmanes são os membros da casta religiosa da Índia, considerada a mais elevada na tradição hindu.]
[24] Nunca nenhum deles fez, mesmo sonhando, semelhante voto para si próprio. Como o poderia imaginar para os outros?
[25] É extraordinária esta jóia da mente, voltada para o bem. O seu nascimento é totalmente inédito, se tivermos em conta que os outros nem sequer a concebem no seu próprio interesse!
[26] Fonte da alegria do mundo, remédio à dor do mundo, diamante espiritual, como medir todo o mérito que a Bodhichitta contém?
[27] Um simples voto para o bem do mundo vale mais do que a veneração do Buddha; quanto mais ainda se lhe juntarmos o esforço de propiciar a felicidade integral de todos os seres!
[28] Os homens querem escapar ao sofrimento e mergulham no sofrimento. Desejam a felicidade e destroem estouvadamente a felicidade, como se ela fosse o verdadeiro inimigo!
[29-30] Sequiosos de felicidade e torturados de mil maneiras... Quem os saciará com todas as alegrias, quem os arrancará de vez à tortura e acabará com esta loucura? Onde encontrar alguém de tamanha bondade, tal amigo, tal mérito?
[31] Se mesmo aquele que presta um serviço em pagamento de outro é louvado, o que dizer do Bodhisattva, que é generoso sem ser solicitado?
[O Bodhisattva liberta-se do Samsara, o ciclo das existências, desenvolvendo todas as qualidades da iluminação, mas ao mesmo tempo, por compaixão, manifesta-se para ajudar os seres. Jamais age com interesse pessoal; todas as suas ações, palavras e pensamentos são consagrados ao bem dos outros.]
[32-33] Quem oferece uma refeição de caridade a algumas pessoas ganha fama de benfeitor, só porque deu, durante alguns instantes e com desdém, um magro pitéu que mal dará sustento aos pobres durante meia jornada. O que dizer daquele que dá a um número infinito de seres, e durante um tempo infinito, a satisfação inultrapassável dos Sugatas, aquela que sacia todos os desejos?
[34] Qualquer pessoa que, diante deste anfitrião que é o Bodhisattva, desenhe em seu coração maus pensamentos, encontrar-se-á nos infernos e aí ficará por tantos os Kalpas quantos os maus pensamentos. Assim o disse Buddha.
[35] Mas quando o coração de alguém se lhe dirige com devoção, a esse ser-lhe-á servido um fruto ainda maior. Confrontado com as piores dificuldades, um Bodhisattva jamais se submete ao mau agir, enquanto que as suas boas ações se multiplicam sem esforço.
[36] Presto homenagem aos corpos dos Bodhisattvas, nos quais nasceu a jóia desta mente sublime [que é a Bodhichitta]. Tomo refúgio nestas minas de felicidade, que mesmo se as ofendemos nos dão ainda a felicidade.
2. A Confissão
[1] Para conquistar esta jóia que é a Bodhichitta, presto homenagem aos Buddhas, à jóia pura do Dharma supremo e aos filhos dos Buddhas [Sangha], oceanos de mérito espiritual.
[Dharma é o conjunto dos ensinamentos dados pelos Buddhas e pelos mestres realizados que mostram o caminho para a iluminação. Há dois tipos: o Dharma das escrituras, que é o suporte destes ensinamentos, e o Dharma da realização, que é o resultado da prática espiritual. Sangha é a assembléia dos discípulos do Buddha.]
[2-6] Todas as flores e todos os frutos, as ervas medicinais e todos os tesouros do universo, as águas puras e deliciosas, as montanhas feitas de preciosas gemas, as encantadoras solidões dos bosques, as lianas lindíssimas ornadas de flores, as árvores com os ramos vergando sob o peso dos frutos, os perfumes dos mundos divinos e humanos, a árvore dos desejos e as árvores de pedrarias resplandecentes, os lagos espargidos de flores de lótus e suspensos no canto dos cisnes, as plantas silvestres e as de cultivo, e tudo o que é nobre ornamento disseminado na imensidão do espaço, tudo isto, que não pertence a ninguém, considero-o na minha mente e ofereço-o aos Buddhas, sublimes entre os seres e aos seus filhos. Possam aceitá-los, tão dignos são das mais belas oferendas! Possam os grandes compassivos ter compaixão de mim!
[Segundo as mitologias hindu e buddhista, as árvores dos desejos ou Kalpadrumas são as cinco árvores celestiais que dão como fruto tudo aquilo que desejamos.]
[7] Não tenho o menor mérito e sou tão pobre que nada mais posso oferecer. Hajam por bem os protetores — sempre pensando no bem dos outros —, graças aos deus poderes, receber estas oferendas para o meu bem!
[8] Eu mesmo me ofereço para toda a eternidade aos Jinas e aos seus filhos. Admitam-me ao vosso serviço, oh seres sublimes! É com devoção que me faço vosso servidor.
[Jina, "vitorioso", "vencedor" ou "conquistador", é um epíteto dos Buddhas.]
[9] Agora, aceite ao vosso serviço, acabou-se o medo. Trabalho para o bem de todos os seres, escapei aos danos antigos e não renovo o nefasto agir.
[10-11] Em termas perfumadas e que encantam os olhos com as colunas esplêndidas de jóias, cortinas resplandecentes bordadas a pérolas e lajes de puro e brilhante cristal, com muitas jarras incrustadas de gemas preciosas, transbordando de água perfumada, ao som de cânticos e de música, preparo os banhos dos Buddhas e de seus filhos.
[12] Com toalhas sem igual, impregnadas de incensos, impecáveis e imaculadas, seco-lhes o corpo e visto-os, com túnicas sedosas e perfumadas.
[13] Com roupas etéreas, delicadas, finíssimas, esplendentes, e com profusos ornamentos, adorno Samantabhadra, Ajita, Manjushri, Lokeshvara e os outros Bodhisattvas.
[Samantabhadra é o Bodhisattva que simboliza a oração e a oferenda sem limites; o Bodhiattva Ajita-Maitreya é o Buddha do futuro; o Bodhisattva Manjushri personifica a sabedoria perfeita; e Lokeshvara, ou Avalokiteshvara, é o Bodhisattva da compaixão.]
[4] Com fragrâncias delicadas, de perfume penetrando até aos confins do universo, unjo os corpos de todos o Buddhas, resplandecentes como ouro purificado, lustroso e polido.
[15] Com todas as flores de perfume inebriante, o jasmim, o lótus azul e a eritrina, com graciosas guirlandas, honro os tão veneráveis Buddhas.
[16] Ofereço-lhes nuvens de incenso que alegram o coração, com o seu sutil e envolvente perfume. Presto-lhes homenagem com vasto sortido de alimentos e bebidas celestiais.
[17] Dispostos em leitos de lótus de ouro, acendo lamparinas de pedrarias preciosas e lanço, ao longo de lajes polidas de perfume, punhados de pétalas de flores encantadas.
[18] Ofereço a estes misericordiosos inconcebíveis palácios celestiais decorados de magníficas grinaldas de pérolas e de jóias, ornamentos de um céu sem limite, reverberando melodiosos hinos.
[19] Aos possantes Buddhas apresento altos pára-sóis com requintadas pedrarias, de cabos em ouro e grácil forma, incrustados de pérolas e de um brilho estonteante.
[20] Que se levantem nuvens de cantos e toadas que deleitam o coração, nuvens de oferendas que apaziguam a dor dos seres!
[21] Sobre todas as jóias do supremo Dharma, sobre Stupas e estátuas, caiam chuvas contínuas de flores, jóias e substâncias preciosas!
[As jóias do Dharma supremo são os doze tipos de textos sagrados: os ensinamentos orais do Buddha (sutram), os cantos versificados (geuam), as profecias (vyakaranam), os poemas sagrados (gatha), as instruções enunciadas pelo Buddha sem que tenha sido solicitado (udanam), as explicações preliminares aos ensinamentos (nidanam), as parábolas (avadanam), as histórias e as lendas (itivrittakam), as histórias sobre as vidas anteriores do Buddha (jatakam), as explicações detalhadas (vaipulyam), os ensinamentos extraordinários (adbhuta-dharma), os ensinamentos essenciais e concludentes (upadesha). Stupas são relicários buddhistas.]
[22] Assim como Manjushri e outros Bodhisattvas satisfizeram os Jinas com oferendas, também eu faço oferenda aos Buddhas e aos seus filhos.
[23] Com hinos lindos, marés de ritmos harmoniosos, exalto os que são oceanos de mérito; que sem cessar estes cânticos de louvor se levantem em revoada para eles!
[24] Prostro-me diante dos Buddhas dos três tempos, do Dharma e da suprema Sangha, com tantos os corpos quantos os átomos que hajam em todos os Campos de Buddha.
[Os três tempos são o presente, o passado e o futuro. Os campos de Buddha (Buddhakshetra), ou terras puras, são os mundos onde os Buddhas aparecem e ensinam. Há uma infinidade para além do nosso mundo terrestre, que é considerado o ampo do Buddha Shakyamuni.]
[25] Salve todos os Stupas e todos os suportes do Bodhichitta! Homenagem aos mestres espirituais e aos ascetas veneráveis!
[26] Refugio-me no Buddha até ao coração da iluminação; refugio-me no Dharma e na vasta Sangha dos Bodhisattvas.
[Esta é a fórmula de refúgio nas Três Jóias.]
[27] Com as mãos juntas, dirijo-me aos Bodhisattvas misericordiosos e aos Buddhas que vivem em todas as direções do espaço.
[Aqui começa a confissão das ações negativas (papadeshana) que dá o título a este capítulo. O que precede é designado pelas expressões de homenagem (vandana) e oferenda (pujana).]
[28-29] Todo o mal que fiz ou causei, embrutecido e estúpido na eternidade das transmigrações ou na presente vida, todo o mal que na minha cegueira aprovei, para minha perdição, confesso-o, consumido de remorsos.
[30-31] Todas as ofensas que cometi, subjugado pelas emoções, em ultraje às Três Jóias ou contra o meu pai e mãe, contra os mestres e todos os demais, quer por atos, palavras ou pensamentos; todo esse pernicioso agir que cometi, afligido pelos múltiplos vícios, tudo isto confesso, oh condutores do mundo!
[32] Como escapar a estas faltas? Apressai-vos para me salvar, não vá a morte chegar e eu por me redimir!
[33] É que a morte não se perde em considerações pelo que está ou não por fazer. Que ninguém se fie nela, de boa saúde ou doente, a vida pode partir de improviso.
[34] Vezes sem conta o prazer e o desagrado foram para mim ocasião de mal agir. Como pude esquecer que um dia teria de abandonar tudo e partir?
[35] Os que me incomodaram já não estarão aqui, os que me agradaram também não, e até eu já não existirei; aliás, nada subsistirá.
[36] O que agora percebo não passará de uma lembrança, assim como as coisas que nos atravessam os sonhos, passageiras, fugazes... nunca mais as veremos.
[37] Durante a minha permanência neste mundo, muitos se foram, uns amigos, outros inimigos, mas o mal que cometi por causa deles continua sempre presente, como uma ameaça que não me larga.
[38] Estou de passagem nesta terra, foi isso que não compreendi. Quanto mal não cometi por ignorância, por apego ou por ódio...
[39] Noite e dia, sem parar, a vida vai escorrendo e nenhum ganho a fará crescer: é tão inevitável morrer!
[40] Aqui mesmo, deitado no leito, ainda que rodeado pelos meus, terei de suportar sozinho os sofrimentos da agonia.
[41] Quando somos agarrados pelos mensageiros de Yama, o senhor da morte, de que valem parentes e amigos? Só o bem me pode trazer a salvação, mas o bem, esqueci-me de praticá-lo...
[O senhor da morte é Yama Dharmaraja, cujos enviados vêm atormentar os seres depois da morte e, se tal for o karma desses seres, os empurram para os reinos inferiores.]
[42] Por apego a esta vida efêmera, por ignorância do perigo, por frivolidade, fiz muito mal, oh protetores!
[43] O condenado que arrastam para lhe cortarem um membro está crispado pelo terror, a sede devora-o, a vista foge-lhe e fica transfigurado.
[44] Que será de mim quando os terríveis mensageiros de Yama me agarrarem, esgazeados pelo medonho assombro e pelo terrível desprezo?
[45] Os meus olhos, desorbitados pelo terror, procurarão em todos os cantos maneira de me salvar. Quem, por bondade, me virá livrar deste enorme perigo?
[46] Vendo o espaço vazio de qualquer socorro, mergulhando numa obscura loucura, ai de mim, que farei nesse lugar tenebroso?
[47] É desde já que apelo aos possantes guardiões do mundo, aos Jinas que dissipam todos os medos e guardam uma constante diligência para a proteção do mundo!
[48] Apelo do fundo do coração ao Dharma por eles realizado, que destrói os medos da transmigração, e apelo à multidão dos Bodhisattvas.
[49] Perdido de medo, entrego-me a Samantabhadra; dou-me inteiramente a Manjushri.
[50] Ao protetor Avalokiteshvara, cujos atos são todos eles conduzidos pela compaixão, lanço o meu grito de dor e de medo: protegei-me, a mim, o malfeitor!
[51] Ao nobre Akashagarbha e a Kshitigarbha, a todos os protetores compassivos, suplico: guardai-me!
[52] E àquele cuja simples aparição aterroriza e põe em fuga nas quatro direções os mensageiros da morte e os outros opressores, saudações a Vajrapani.
[Vajrapani, com Manjushri e Avalokiteshvara são os três Bodhisattvas chamados protetores das Três Famílias.]
[53] Transgredi a vossa palavra e agora, estarrecido face ao perigo, refugio-me em vós; apressai-vos a escorraçar este perigo!
[54] Se quando receamos uma simples doença passageira, seguimos sem violar a prescrição do médico, quanto mais quando estamos corroídos pela cobiça e pelas quatrocentas e quatro doenças.
[55] Ora, há doenças para as quais o universo inteiro não contém remédio e das quais uma só bastaria para destruir todos os habitantes do Jambudvipa.
[Jambudvipa é o nosso mundo, ao sul do Monte Meru.]
[56] E eu violo a palavra do médico onisciente que cura todas as dores! Que vergonha, que insensatez!
[Médico onisciente é um epíteto do Buddha.]
[57] Se sigo com tanta prudência quando caminho à beira de um precipício, porque sou tão desleixado nesta beira inferno, se este abismo é fundo de milhares de léguas e se estende na imensidão do tempo?
[58] "A morte não há de chegar hoje!" Que falsa certeza! A hora de deixar tudo aproxima-se, inexorável!
[59] Quem acalmará o meu terror? Como poderei escapar? Virá o dia em que deixarei de existir! Como a minha mente pode estar tranqüila?
[60] Que fruto me restará de todos os prazeres de outrora, hoje abolidos, nos quais me regozijei, em despeito da palavra do mestre?
[61] Ao deixar o mundo dos vivos, deixando parentes e amigos, irei só, mas não sei para onde. Que me importam então amigos ou inimigos?
[62] Uma só preocupação me deve ocupar noite e dia: as ações negativas produzem necessariamente a dor; como hei de me livrar delas?
[63-64] Os atos inconfessáveis que cometi por ignorância ou loucura, atos que são negativos por natureza ou por transgressão dos preceitos, confesso-os a todos, com o devido respeito e receio, as mãos juntas e prostrando-me sem cessar diante dos protetores.
[Os atos negativos por natureza são nomeadamente o ato de matar, o roubo, a má conduta sexual, a mentira, a violência verbal, a malvadez, etc. As transgressões dos preceitos são as faltas à regra monástica, para os que tomaram votos.]
[65] Que os guias conheçam as minhas faltas assim como elas são. Este mal, ó protetores, nunca mais o voltarei a cometer.
3. Adotar a Bodhichitta
[1] Felicito-me pelo bem feito por todos os seres, graças ao qual eles se livram dos sofrimentos dos lugares de tormento; que eles sejam felizes!
[2] Regozijo-me pelos seres que acumulam méritos pois são a causa da iluminação para eles. Que todos obtenham a libertação definitiva do doloroso ciclo das existências.
[3] Rejubilo com a iluminação dos Buddhas e com os níveis de realização dos seus filhos, os Bodhisattvas.
[Este verso não figura na versão de Louis Finot.]
[4] Regozijo-me com os pensamentos virtuosos, vastos e profundos como o mar, desaguando na felicidade dos seres, e com os atos que concretizam o bem dos seres.
[5] Com as mãos juntas, suplico aos Buddhas de todo o universo: acendei a lâmpada do Dharma para todos aqueles que estão perdidos e que caem no abismo da dor.
[6] Com as mãos juntas, imploro aos Buddhas desejosos de se extinguir — ficai ainda entre nós, por ciclos sem fim, para que o mundo não fique mergulhado na cegueira.
[7] Tendo realizado tudo isto, e pela virtude do mérito que assim adquiri, possa eu ser para todos aquele que apazigua a dor.
[8] Possa eu ser para os doentes o remédio, o médico e o enfermeiro, até à extinção da doença!
[9] Possa eu, em revoadas de alimentos e bebidas, atenuar o suplício da fome e da sede e, nos períodos de grande penúria dos antaraKalpas, ser eu próprio a comida saciante e a bebida desalterante.
[10] Possa eu ser para os pobres um tesouro inesgotável, resposta sempre pronta para tudo o que lhes falte!
[11] Todos os meus corpos e bens, todo o meu mérito do passado, do presente e do futuro, tudo abandono sem hesitar para que o benefício de todos os seres seja atingido.
[12] O Nirvana é a renúncia a tudo e a minha mente ao Nirvana. Se devo tudo abandonar, mais vale dá-lo aos outros!
[13-17] Que nunca seja estéril o meu encontro com alguém! Entrego este corpo ao capricho de todos os seres. Que o maltratem, ultrajem, castiguem e cubram de pó! Façam sempre dele um joguete, um objeto de escárnio e de chalaça! Que me importa, se lhes dei o meu corpo? Obriguem-no a fazer tudo o que vos seja agradável! Mas que nunca vos seja ocasião de dano. E se alguém se irrita contra mim ou me quer bem, que isso mesmo sirva para a realização dos seus votos! Oxalá os que me caluniam e magoam, os que se riem de mim e todos os demais recebam a iluminação!
[18-20] Possa eu ser o protetor dos abandonados, o guia dos que caminham e, para os que aspiram à outra margem, ser a caravela, a barca ou a ponte. A ilha dos que buscam uma ilha, a lâmpada dos que precisam de lâmpada, o leito de quem queira um leito, o escravo de quem queira um escravo. Ser a pedra do milagre, a jarra do tesouro inesgotável, a fórmula mágica, a planta que cura, a árvore dos desejos, a vaca da abundância!
[A pedra do milagre (chintamani) tem o poder de concretizar os nossos pensamentos; a jarra do tesouro inesgotável (bhadraghata) contém tudo o que se deseja; a fórmula mágica (siddhavidya) permite ter êxito em todos os empreendimentos; a planta quec ura (maha-ushadi) é um remédio universal; a árvore dos desejos (Kalpavriksha) e a vaca da abundância são duas das maravilhas celestes: uma tem como frutos e a outra dá como leite tudo o que se deseja.]
[21-22] Como a terra e os outros elementos servem os múltiplos propósitos dos seres em número vasto como o céu, na vastidão do espaço sem fim, possa eu também ser de todas as maneiras útil aos seres que povoam o espaço, por todo o sempre, até que todos sejam libertos!
[23-24] Assim como os Buddhas precedentes adotaram a Bodhichitta e gradualmente a foram praticando, farei nascer em mim a Bodhichitta para o bem do mundo e, uma a uma, exercitar-me-ei em todas as práticas que o preparam.
[25] Tendo deste modo abraçado firmemente a Bodhichitta, o sábio, para favorecer o seu desenvolvimento, deve-o encorajar ainda e ainda refletindo assim:
[26-27] "Hoje o meu nascimento chegou à maturidade e recebo pleno proveito da minha qualidade de ser humano. Hoje, nasci na família dos Buddhas, hoje sou um filho de Buddha. Agora, resta-me agir em conformidade com um homem que respeita o costume da sua família; não receba ela de mim uma mancha que altere a sua pureza."
[28] Como um cego que encontra uma jóia num monte de esterco, em mim surgiu, não sei como, esta Bodhichitta.
[29-32] É um elixir que nasce para abolir a morte do mundo, um tesouro inesgotável que acaba com a miséria do mundo, um remédio incomparável que tira a doença do mundo, uma árvore sob a qual o mundo repousa, cansado de errar pelos caminhos da vida, uma ponte aberta a todos os que chegam, para os conduzir para além das vias dolorosas, uma lua espiritual em luar que refresca do escaldão das emoções negativas do mundo, um imenso sol que dissipa as trevas da ignorância, uma nova e untuosa manteiga, filha da nata bem batida do leite do bom Dharma.
[33] Eis preparado o banquete da alegria para a longa caravana humana que segue pelos caminhos da vida, faminta de felicidade. Venham todos saciar-se!
[34] Hoje, na presença de todos os Protetores, convido toda a gente ao estado de Buddha e, até lá, à felicidade! Que os Devas, Asuras e os demais se regozijem!
4. Aplicar a Bodhichitta
[1] Tendo assim firmemente abraçado a Bodhichitta, que o Bodhisattva, sem olhar para canseiras, se esforce para não transgredir a regra.
[2-3] Empreendimento que tomamos precipitadamente, sem reflexão madura, podemos, mesmo após promessa, realizar ou abandonar. Mas o que foi examinado pelos Buddhas e Bodhisattvas em toda a sua sabedoria, e também atentamente por mim, porque razão adiá-lo?
[4] Se depois de o ter prometido, não o realizo realmente, enganando assim todos os seres, qual será o meu destino?
[5] "Aquele que pensou em dar e não deu, tornar-se-á um fantasma faminto", dizem, e isto mesmo no caso de uma ninharia.
[6] Quanto mais se, tendo proclamado a bom som e do fundo do coração a felicidade suprema, vier a enganar o mundo inteiro. Como poderei encontrar um destino afortunado?
[7] Só o onisciente [Buddha] conhece o insondável curso do karma, que liberta os homens, mesmo quando abandonam a Bodhichitta.
[8] Mas num Bodhisattva esta falha é muito grave, pois, quando falha, está destruindo o bem de todos os seres.
[9] E quem faz barreira à atividade de um Bodhisattva, ainda que por um instante, renascerá sem fim nos lugares de tormento, pois no fundo está atacando o bem de todos os seres.
[10] Se quando comprometemos o bem de um único ser o nosso bem fica comprometido, quanto não ficará quando se trata de todos os seres que povoam a imensidão infinita do espaço?
[11] Assim derivando pelo oceano das existências, ora arrastado pelas vagas do errar, ora pela força da Bodhichitta, recuando e adiando o aportar às terras.
[Aqui, Shantideva faz um jogo de palavras entre os dois sentidos da palavra bhumi: "terra" e "nível" (estágio) na progressão espiritual do Bodhisattva.]
[12] Portanto, farei escrupulosamente o que prometi! Se hoje mesmo não fizer um esforço, irei de mal a pior.
[13] Vieram Buddhas sem conta, procurando por todo o lado onde houvesse seres a socorrer, mas por minha falta nunca estive no alcance do seu poder de curar.
[14] Se agora continuar como sempre fui, o meu fado será os lugares de tormento, a servidão, as mutilações e as lacerações.
[15] Quando voltarei a reunir o aparecimento de um Buddha, a fé, a condição humana, a aptidão à prática do bem, todas estas coisas tão difíceis de obter?
[16] A saúde, o pão nosso de cada dia, o dia-a-dia, com o seu quinhão de segurança, esta vida efêmera, tudo isto é tão enganador... este corpo mais parece uma coisa emprestada.
[17] Uma coisa é certa: não é com uma conduta como a minha que se obtém de novo o nascimento humano e fora dele só o mal me espera. E, nesse caso, de onde viria o bem?
[18] Se não o praticar agora, que sou capaz, como o farei mais tarde, quando estiver embutido pelo sofrimento dos destinos funestos?
[19] A simples menção da palavra "felicidade" é abolida por centenas de milhões de Kalpas para quem acumula o mal e não pratica o bem.
[20] Por isso o Bhagavan disse, "É tão raro obter a condição humana como é difícil a uma tartaruga enfiar o pescoço no buraco de um jugo à deriva no oceano."
[Esta comparação, muito freqüente nos textos buddhistas, é desenvolvida no Sutralamkara de Ashvagosha.]
[21] Por uma falta de um instante ficamos um ciclo inteiro no inferno Avichi. Diante das más ações acumuladas desde tempos infinitos, como falar de felicidade?
[Avichi é o mais intenso dos dois infernos quentes.]
[22] Se ao menos bastasse sofrer as conseqüências deste agir para se livrar dele, mas não, porque enquanto as suportamos continuamos a acumular más ações.
[23] Não há pior loucura ou desatino do que ter encontrado uma ocasião semelhante e não a aproveitar para a prática do bem.
[24] E se depois de o ter compreendido, sucumbo à indolência, por estupidez, condeno-me a mim próprio ao sofrimento no momento da morte.
[25] Por muito tempo o meu corpo arderá no insuportável fogo do inferno; por muito tempo a minha mente rebelde será devorada pelo fogo do remorso. Não há qualquer dúvida: é assim!
[26] Subi, não sei como, a esta terra favorável, tão difícil de alcançar, e não é que, conscientemente, sou reconduzido aos mesmos infernos?
[27] Está visto que perdi o juízo! Não sei que feitiço me cega, quem me transtorna, quem se esconde dentro de mim?!
[28] A cobiça, o ódio e as demais emoções negativas são inimigos sem mãos e sem pés, desprovidos de coragem e inteligência; como é possível que me tenha tornado escravo delas?
[As emoções negativas, ou kleshas, são todos os acontecimentos mentais que perturbam e obscurecem a mente, que nos fazem perder o controle. Estes "venenos interiores" são a causa de todos os nossos sofrimentos. São principalmente a cobiça, o ódio, a ignorância, o orgulho e a inveja.]
[29] Emboscados na minha mente, atacam-me a seu bel-prazer e eu nem sequer me irrito! Basta! Que paciência absurda!
[30] Mesmo que tivesse como inimigos todos os Devas e todos os Asuras, juntos não seriam capazes de me arrastar para o inferno.
[31] Mas as emoções negativas, esses poderosos inimigos, lançam-me, num piscar de olhos, num fogo tal que até o monte Meru derreteria sem deixar a mais pequena cinza.
[Na mitologias hindu e buddhista, o Monte Meru ou Sumeru é a a montanha axial do Universo, feita de puro cristal no leste, de safira no sul, de rubi no oeste e de ouro no norte.]
[32] Nenhum outro inimigo tem uma vida tão longa, como a longa vida, sem princípio nem fim, destas minhas inimigas, as emoções negativas.
[33] O homem paga o bem com o bem; mas as emoções negativas, a quem as serve, apenas lhes reserva a pior das desgraças.
[34] O seu ódio é constante e vivaz, elas são a única fonte da torrente das misérias e vivem na minha mente! Como posso viver em paz?
[35] Guardiãs da prisão da transmigração, carrascos dos seres nos infernos e nos outros lugares de tortura, enquanto forem hóspedes da casa da minha mente, na jaula da minha cobiça, como poderei saborear a alegria?
[36-38] Por isso, não baixarei os braços até ver estes inimigos aos meus pés, completamente aniquilados. Por uma coisa de nada, os orgulhosos são capazes de perseguir um adversário e nem dormem enquanto não o esmagam. Na frente de batalha desferem golpes terríveis a uns infelizes que, de qualquer modo, a natureza já tinha condenado ao suplício da morte. Querem lá saber das dores, das feridas, das flechas e das lanças! Sem darem as costas, continuam sempre até vencer. E eu, que me ergui para vencer os meus inimigos naturais, autores constantes de todas as minhas dores, por que razão me deixo levar pelo desespero e pelo abatimento, mesmo à custa de centenas de misérias?
[39] Há quem exiba as inúteis cicatrizes feitas pelos inimigos. Como posso eu, que me levantei para realizar um alto feito, desanimar perante os sofrimentos?
[40] Os párias, os lavradores e os pescadores, com a mente concentrada nos meios de subsistência, são capazes de suportar o calor, o frio e todas as outras misérias. Porque eu não hei de suportá-los também, para o bem do mundo?
[41] Decidi libertar das emoções negativas o mundo inteiro, nas dez direções do espaço, mas nem sequer libertei a mim!
[42] Errei ao apreciar o meu valor, falei como um insensato; mas agora, esforçar-me-ei sem parar e, sem voltar atrás, destruirei as emoções negativas.
[43] Serei um guerreiro implacável, obcecado com uma única idéia: perseguir com ódio feroz todo e qualquer emoção [negativa], menos a emoção de acabar com todas [elas].
[44] Que seja queimado vivo, que caia a cabeça cortada, mas nunca mais me vergarei perante estes inimigos que são as emoções negativas!
[45] Um inimigo expulso pode encontrar asilo noutra parte, reunir forças e voltar a atacar; mas para o inimigo chamado emoção negativa, não existe tal refúgio.
[46] Depois de escorraçado, em que lugar poderia este hóspede da minha mente preparar a minha ruína? A minha única asneira é ser indolente. As emoções negativas não passam de vil canalha que foge à vista da sabedoria.
[47] As emoções negativas não vivem nos objetos e não vivem nos sentidos, nem tão pouco no intervalo, nem em parte alguma. Onde estarão instaladas para atormentar o mundo inteiro? Simples ilusões! Oh, minha mente, abandona todo o receio e esforça-te até à sabedoria! Porque te atormentas desnecessariamente nos infernos?
5. Guardar a Vigilância
[1] Quem queira respeitar a regra tem de vigiar a mente com atenção; a regra é impossível de observar para quem não domina a instabilidade da mente.
[2] Mesmo os elefantes selvagens na voragem do cio provocam menos desgraças que este elefante, a mente desenfreada, em Avichi e nos outros infernos.
[3] Mas se o elefante da mente for bem agarrado pela rédea da atenção, todo o perigo se desvanece e todo o bem se oferece.
[4-5] Tigres, leões e elefantes, ursos e serpentes, todos os inimigos, todos os carcereiros dos infernos, fúrias e vampiros, todos são agarrados quando a mente é agarrada, todos são domados quando a mente é domada.
[6] E porquê? Porque todos os perigos e toda a panóplia de sofrimentos procedem da mente e só da mente, assim o disse o verídico [Buddha].
[7] Quem fabricou com empenho os engenhos do inferno? E quem o revestiu de ferro ao rubro? E essas mulheres vampiros, de onde vêm?
[Nos infernos, os adúlteros sentem um impulso irresistível de subir à gigantesca árvore Kutashalmadi, onde mulheres com dentes de ferro os agarram em abraços que os despedaçam.]
[8] Tudo isso procede da perversidade da mente, disse o Buddha; assim, ela é a única coisa a temer neste mundo.
[9] Se a perfeição da generosidade consistisse em enriquecer o mundo, os salvadores ancestrais [Bodhisattvas] não a teriam possuído, uma vez que o mundo continua pobre.
[10] O pensamento de sacrificar tudo o que se tem a todos os seres, bem como o fruto desse sacrifício, é o que se chama perfeição da generosidade; ela é, portanto, mente e nada mais.
[11] Para termos a certeza de que ninguém os vai matar, onde podemos guardar os peixes e os outros animais? A perfeição da ética é renunciar a fazer mal.
[12] Quantos malfeitores serei eu capaz de matar, se há tantos como a vastidão do espaço infinito? Mas quando eu matar a mente de cólera, todos os inimigos cairão no mesmo instante.
[13] Onde encontrar um pedaço de couro tão grande que cubra a terra inteira? Não bastará a sola de uma sandália?
[14] Assim, nunca poderei dominar os fenômenos exteriores, mas, na minha mente, ganharei mestria! Que me importam as outras mestrias?
[15] O corpo e a fala são de menos valia, de modo algum conseguem o que uma mente clara consegue por si só, como a dignidade de Brahma e outras recompensas.
[16] Orações, asceses prolongadas, tudo é vão quando a mente está distraída e confusa, disse o onisciente.
[17] Para abolir o sofrimento e alcançar a felicidade, em vão seguem errando à toa os que não conhecem o segredo da mente, o ensinamento supremo e essencial.
[18] A minha mente tem de ser claramente guardada e vigiada: sem esta prática de controlar a mente, as outras nada valem.
[19] Assim como uma pessoa magoada e rodeada de gente descuidada protege a sua ferida com cuidado, assim, rodeados de malfeitores, devemos proteger a nossa mente como se ele fosse uma ferida em carne viva.
[20] Com medo de sentir a menor pontada de dor, protejo com todo o cuidado um ferimento. Porque será que, estando ameaçado pelas montanhas que esmagam, nunca me lembro de proteger esta chaga que é a minha mente?
[Montanhas que esmagam são montanhas do inferno que, aproximando-se entre si, esmagam os danados.]
[21] Agindo conforme esta regra de conduta, o asceta, mesmo rodeado de malfeitores ou entre um rancho de mulheres, permanece firme e tranqüilo.
[22] Que me importa perder toda a minha fortuna, todas as honrarias, a própria vida e mesmo qualquer outro bem espiritual, mas perder a minha mente, isso nunca!
[23] Aos que querem controlar a mente, dirijo esta minha súplica: "Guardem com toda a força a atenção e a vigilância!"
[24] Assim como um homem perturbado pela doença é incapaz de agir, a mente perdida e dispersa é incapaz de qualquer ação.
[25] Se a mente vagueia na distração, tudo o que o estudo, a reflexão e a meditação puderem produzir, esvai-se da memória como a água de um vaso rachado.
[26] Muitos são os homens instruídos, crentes e zelosos, que, por falta de vigilância, se expõem às máculas da transgressão.
[27] A inconsciência é um ladrão sempre à espera de um eclipse da atenção; assim, despojados do mérito acumulado, caímos nos destinos fatais.
[28] As emoções negativas são um bando de piratas à procura de uma passagem; se a encontram, pilham-nos toda a virtude e arrasam a fortuna, que é um renascimento nos mundos superiores.
[29] Oh atenção, nunca te afastes da porta da mente! Recordemos os suplícios dos mundos inferiores para a fazer voltar, caso ela se afaste.
[30] Felizes os que agem com cuidado e consideração no respeito pelas instruções de seus mestres! Da convivência com os mestres nasce facilmente a atenção.
[31-32] "Os Buddhas e os Bodhisattvas pousam o seu olhar sobre todas as coisas, tudo lhes é presente e também eu estou na sua presença." Com este pensamento, que a nossa conduta reflita modéstia, respeito e receio. Façamos com que a lembrança dos Buddhas nos venha a cada instante.
[33] Quando a atenção permanece à porta da mente para a guardar, a vigilância vem e, mesmo que se afaste, rapidamente volta.
[34] Portanto, antes de mais, devo estar consciente do meu estado de mente e, se em falta, devo permanecer imóvel e sossegado como uma tora.
[35] Sem espreitadelas inúteis para aqui e acolá, devo guardar o olhar ligeiramente baixo e a mente em recolhimento.
[36] Para repousar a vista, podemos ocasionalmente contemplar o horizonte e quando percebemos a sombra de um viandante podemos levantar o olhar para o saudar.
[37] A caminho, para nos darmos conta de eventuais obstáculos, podemos examinar sempre que necessário os quatro pontos cardeais. Quando repousamos, podemos voltar-nos e olhar para trás.
[38] Depois, tendo visto o que se passa à frente e atrás, podemos avançar, recuar ou fazer com conhecimento de causa o que é conveniente face às circunstâncias.
[39] "A posição do meu corpo deve ser esta", diz o neófito ao começar uma certa ação, e, enquanto ela decorrer, deve ainda verificar a sua posição de vez em quando.
[40] Deve também vigiar de perto a mente, esse elefante no cio, com medo que ele rompa o laço que o amarra ao grande mastro, que é o respeito pelo Dharma.
[41] "Como está a minha mente?" Vai repetindo, enquanto se exerce na meditação, e observa-a sem a deixar escapar um só instante.
[42] Se, todavia, em certas circunstâncias não for possível agir assim, como num grande perigo ou numa festa, então que esteja à vontade, pois é dito que no tempo da generosidade a disciplina pode folgar!
[43] Se decidimos, a propósito, começar uma atividade, não devemos pensar noutra antes de a acabar, agindo de mente inteira.
[44] Deste modo, o que fizermos será bem feito; senão, ambas as ações serão defeituosas e a confusão que nasce da falta de vigilância não parará de crescer.
[45] Abandonemos o interesse pelas coisas sensacionais e pelas mais variadas e infatigáveis conversas, nas quais nos deleitamos demasiado freqüentemente.
[46] Esgravatar a terra, arrancar ervas e traçar linhas no chão são atos estéreis. Recordando a regra dos Buddhas, devemos receá-los e, sem hesitar, renunciar.
[47] Se nos queremos mexer ou falar, devemos antes de mais nada examinar a mente, estabilizá-la, e depois então agir da maneira apropriada.
[48] Se nos sentimos movidos pelo apego ou pela aversão, não devemos agir nem falar, devemos ficar quietos como uma tora.
[49-50] Quando a mente se mostra excitada, trocista e orgulhosa, ou vaidosa, inquiridora e rancorosa, insidiosa, ávida de elogios, desdenhosa, grosseira e brigona, devemos ficar quietos como uma tora.
[51] Será que a minha mente está em busca de ganhos ou de honrarias, de glória, ávido de companhia ou desejoso de ser servido? Ficarei, portanto, quieto e contente, como uma tora.
[52] A minha mente baniu o interesse pelo bem dos outros, é interesseira e inclinada a conversas? Ficarei, portanto, quieto e contente, como uma tora.
[53] Intolerante, indolente, tímido ou desavergonhado, tagarela, dedicado unicamente à camarilha? Ficarei, portanto, quieto e contente, como uma tora.
[54] O valoroso praticante, quando vê a mente agitada desta maneira, arrebatada por projetos inúteis, deve refreá-la com toda a força pelo método dos contrários.
[55-57] Determinado, inabalável na sua fé, firme, bem educado e respeitador, tendo pudor e receando as faltas, sossegado, dedicado à satisfação dos outros, sem se aborrecer com os desejos contraditórios dos seres pueris, pelo contrário, sempre compassivo e pensando ser isso o efeito das paixões, sempre irrepreensível e agindo para o seu bem e para o bem dos outros. Compreendendo que o "eu" é como uma ilusão, sem realidade, assim guardarei a mente.
[58] Relembrando continuamente o valor desta vida humana, obtida depois de tanto tempo, assim guardarei a minha mente, imóvel e firme como o monte Meru.
[59] Se, quando o meu corpo é despedaçado e arrastado de um lado para o outro pelos abutres ávidos de carne, tu não te irritas, oh minha mente, porque hás de acarinhá-lo tanto agora?
[60] Porque velas por este corpo, oh minha mente, como se ele fosse o teu "eu"? E se ele é distinto de ti, porque te ralas com o seu desaparecimento?
[61] Insensato! Se não consideras como o teu "eu"" um boneco de madeira, que é coisa limpa, porque mimas uma máquina composta de elementos impuros e destinada à podridão?
[62-63] Começa, em pensamento, por retirar o invólucro de pele e, com o bisturi da análise, separa a carne da sua armação de ossos. Parte também os ossos e vê a medula que contêm. Agora pergunta a ti mesmo: que há aí de essencial?
[64] Se olhares com todo o cuidado, nada verás de essencial! Então? Porque teimas ainda em proteger o teu corpo?
[65] Os seus excrementos não se comem, não bebemos o seu sangue nem sugamos as suas v |