Qualquer morada é deliciosa para o homem iluminado. Não importa se vive numa vila o na floresta. Não importa se vive na escuridão ou num lugar luminoso.
Inclusive as florestas, que as pessoas comuns julgam desagradáveis, são uma delícia para o homem iluminado, pois qualquer lugar é delicioso para aquele que queimou suas paixões e se encontra além dos prazeres dos sentidos.”
Capítulo VIII – Mil
“Uma só frase racional, capaz de acalmar àquele que a escuta, é melhor do que mil discursos cheios de palavras embaralhadas sem significado algum.
Um só verso benéfico, capaz de acalmar àquele que o escuta, é melhor do que mil versos repletos de palavras inúteis.
Uma só palavra do Dhamma, capaz de acalmar àquele que a escuta, é melhor do que mil doutrinas cheias de palavras vazias.
Melhor é a conquista de si mesmo do que a conquista de mil vezes mil homens em batalha. Melhor é a conquista de si mesmo do que a conquista de outros. A vitória daquele que conquistou a si mesmo e se comporta com temperança, não pode destruída nem por um deus nem por um semi-deus, nem por Mara nem por Brahma. Melhor é render honras, por um só instante, ao homem iluminado, do que oferecer sacrifícios a cada mês por cem anos.
Melhor é render honras, por um só instante, ao homem iluminado, do que cumprir o ritual do fogo na floresta a cada mês por cem anos.
Muito melhor é honrar ao santo excelente do que todas as oferendas e presentes que se possam oferecer neste mundo durante mil dias para obter homenagens.
Sobre aqueles que habitualmente honram e respeitam aos mais velhos, vão recaindo em contínuo aumento as bênçãos da idade, da beleza, da bondade e da força.
Mais vale um só dia de um homem virtuoso e meditativo do que cem anos de um homem culto e imoral.
Mais vale um só dia da vida de um homem esforçado e resoluto do que cem anos da vida de um homem preguiçoso e indolente.
Mais vale um só dia da vida de um homem esforçado que cem anos da vida de um homem preguiçoso e vadio.
Mais vale um só dia da vida de um homem capaz de compreender como surgem e desaparecem as coisas do que cem anos da vida de um homem que nada sabe do nascimento e da morte das coisas.
Mais vale um só dia da vida de um homem capaz de ver a imortalidade do que cem anos da vida de um homem que carece da visão da imortalidade. Mais vale um só dia da vida de um homem que percebe o Dhamma do que cem anos da vida de um homem incapaz de ver a Sublime Verdade.”
Capítulo IX – O Mal
“Não demoreis em fazer o bem e afastai vossas mentes do mal, pois todo aquele que tarda em fazer o bem acaba sendo alcançado pelo mal.
Insistir na maldade provoca sofrimento. Assim, que ninguém atue mal uma e outra vez. Insistir na bondade produz felicidade. Assim, atua bem uma e outra vez.
Despreocupado vai o malvado enquanto sua má ação não produz frutos. Mas quando ela amadurece, sobre ele cai todo o infortúnio dessa má ação.
Às vezes o homem bom sente dor ao agir bem, mas quando sua boa ação amadurece e produz frutos, então o bondoso recebe a fortuna de sua obra.
Não os descuideis do mal pensando que não os alcançará, pois assim como o cantil se enche gota a gota, assim o malvado vai se enchendo pouco a pouco de maldade.
Não os descuideis do bem pensando que não chegará, pois assim como o cantil se enche gota a gota, assim o sábio vai se enchendo pouco a pouco de bondade.
O mal deve ser evitado com a mesma astúcia que um comerciante rico afasta sua caravana do caminho perigoso, e com o mesmo afinco que o homem que ama a vida evita o veneno.
Assim como o veneno não consegue ferir a mão que o sustenta se não há ferida, assim se livra da maldade aquele que não está enganado.
Como poeira lançada ao vento, volta-se o mal contra o malvado que fere o homem inocente, puro e sem mácula.
Alguns homens nascem de matriz. Outros, os malvados, nascem em estados desgraçados. Outros, os que dominam a si mesmos, nascem em estados benditos. Mas apenas os iluminados alcançam o Nirvana.
Não há lugar algum, nem no céu, nem no meio do oceano, nem m uma caverna perdida nas montanhas, onde um homem possa estar a salvo da morte.”
Capítulo X – Castigo
“Não há homem que não tema o castigo, nem homem que não tema a morte. Aquele que compreende isto, não mata nem provoca a morte.
Não há homem que não tema o castigo, nem homem que não ame a vida. Aquele que compreende isto, não mata nem provoca a morte.
Todo aquele que, em busca da sua própria felicidade, prejudique a outros que, como ele, também buscam plenitude, não a alcançará depois da morte.
Todo aquele que, em busca de sua própria felicidade, não prejudique a outros que, como ele, também buscam plenitude, a alcançará depois da morte.
Não dirijais palavras que machuquem a ninguém, pois aqueles a quem atacais poderiam levantar-se contra vós. Todas as discussões causam dor, e podeis receber golpe por golpe.
Se, como um gongo quebrado, permaneces em silêncio, atinjirás o Nirvana e encontrarás a paz.
A velhice e a morte levam a vida dos seres ao fim, do mesmo modo que um vaqueiro conduz suas vacas à pastagem com um cajado.
O homem ignorante que age mal, é atormentado por suas ações como o homem abraçado pelo fogo.
Aquele que ferir com suas armas ao inocente e ao pacífico, se verá precipitado no sofrimento.
Grandes doenças o atormentarão, ou seu corpo se cobrirá de feridas, ou sua mente se turvará.
Ou padecerá da opressão de seu senhor, ou cairão sobre ele graves acusações, ou perderá sua família, ou se arruinará, ou um incêndio assolará sua casa.
E depois da dissolução de seu corpo, renascerá no inferno.
O homem que ainda não se desfez de suas dúvidas não alcançará a purificação por andar nu, nem por lavar-se, nem por fazer jejum, nem por dormir no chão, nem por cobrir o corpo com cinza, nem por não caminhar erguido.
Não importa se o homem se veste ou não corretamente, pois só aquele que vive em paz, que submeteu suas paixões e dominou seus sentidos, e que não fere ninguém, é puro, e digno de ser chamado brâmane, asceta ou monge.
Muito difícil é encontrar neste mundo um homem que, dominado pela modéstia, evite toda crítica como o cavalo evita o chicote.
Sejam fortes e firmes, como o cavalo ao notar o golpe do chicote. Pela segurança, a virtude, o esforço, a concentração, o estudo da verdade, o conhecimento correto, a boa conduta e a vigilância da mente, prevalecerão sobre o grande sofrimento.
Os encarregados da irrigação canalizam as águas; os fabricantes de flechas as endireitam; os carpinteiros alisam a madeira. Os homens virtuosos dominam a si mesmos.”
Capítulo XI – Velhice
“Acreditais que pode alegrar-se e ser feliz aquele que constantemente está submetido ao ardor de suas paixões? Por acaso não buscarias a luz se estivesses nas trevas?
Compreendei que este belo corpo não é mais do que uma coleção de sofrimento, um mero conglomerado, uma massa transtornada na qual nada perdura e na qual nada persiste.
Neste corpo não há nada a não ser decadência. Nada é a não ser um ninho de doenças, totalmente perecível, matéria corruptível destinada a ser destruída. Compreenda que a vida se acaba com a morte.
Estes ossos secos estão vazios como as abóboras no Outono. Que prazer pode provocar contemplá-los?
Que outra coisa é este corpo senão um conglomerado feito de ossos cobertos de carne e sangue, onde se armazenam a velhice e a morte, o orgulho e o engano?
Assim como as luxuosas carruagens reais envelhecem, assim envelhece o corpo. Mas os Ensinamentos dos Bondosos não envelhece jamais, e desse modo permanece o bem entre os bons.
Aquele que pouco aprende, cresce como um boi, pois cresce sua carne, mas não sua sabedoria.
Atravessei muitas vidas buscando, no samsara, sem conseguir achar o construtor da casa. Não há nada além de sofrimento no constante renascer.
Mas agora, oh contrutor da morada, te vi, e já não construirás novamente esta casa. Todas suas vigas foram destruídas. Suas fundações foram totalmente aniquiladas. Minha mente alcançou o incondicionado, e com isso alcancei o fim do apego.
Os homens que não levaram uma vida nobre, aqueles que em sua juventude não se proveram de tal riqueza, desabam como velhas garças em um tanque de peixes.
Os homens que não observaram a Vida Santa, aqueles que em sua juventude não se proveram de tal tesouro, recuam como um arco inútil”.
Capítulo XII – Temperança
“Um homem que ama a si mesmo não poupa esforços em proteger-se. O homem sábio permanece vigilante em cada uma das três vigílias.
O homem sábio jamais cairá em desgraça se, antes de aconselhar aos outros, se esforçar em esclarecer a si mesmo.
O homem sábio age de acordo com os conselhos que dá aos outros. Mesmo que seja realmente difícil temperar a si mesmo, somente o homem que se tempera pode guiar outras pessoas.
Cada um é seu próprio refúgio. Por acaso pode haver outro refúgio? Por isso, o homem que conseguiu temperar a si mesmo alcança o refúgio mais difícil de conquistar.
O mal causado por cada pessoa nasce de cada pessoa e é originado por ela mesma. O mal tritura o ignorante como o diamante tritura as pedras.
A corrupção estrangula o homem como o cipó maluva estrangula a árvore sala, acabando com ele como se fosse o pior de seus inimigos.
As coisas más e prejudiciais são fáceis de fazer. As coisas boas e benéficas são realmente difíceis de levar a cabo.
O ignorante que, por sua errônea consideração das coisas, despreza os ensinamentos dos Iluminados, dos Nobres e dos Retos, cultiva frutos que, como ocorre com o kashta, acarretam sua própria destruição.
Da própria pessoa nasce o mal, e por isso ela mesma se contamina. A própria pessoa deixa de fazer o mal, e por isso ela mesma se purifica. A pureza e a impureza dependem da própria pessoa. Ninguém pode purificar o outro.
Por buscar a realização espiritual dos outros, ninguém deve negligenciar a busca de sua própria realização espiritual. Percebendo com claridade sua própria meta, permitirá que os outros busquem suas próprias realizações.”
Capítulo XIII – O Mundo
Não persigam coisas vãs. Não sejam negligentes. Não sigam opiniões distorcidas. Não sirvam de apoio ao mundo.
Despertem! Fujam da negligência. Sigam a lei da virtude. O homem que pratica a virtude vive feliz, neste mundo e no próximo.
Sigam o caminho da virtude, e não o do mal. Aquele que pratica a virtude vive feliz neste mundo e no próximo.
Aquele que vê o mundo como mera espuma e ilusão não é visto pelo Deus da Morte.
Não sente, o sábio, apego algum pelo mundo. Venham e contemplem este mundo enfeitado como uma carruagem real onde estão imersos os tolos!
Assim como a lua ilumina a terra ao livrar-se das nuvens, assim acontece com aquele que deixou de ser ignorante.
Como a lua emergindo das nuvens, assim acontece com aquele que prefere as boas ações às más.
Este mundo está cego, e somente uns poucos chegam a ver com claridade. Sim: Somente uns poucos alcançam o reino divino como pássaros liberados de grades.
Os cisnes seguem, com seu vôo, o caminho do sol. E os homens cruzam os céus com os poderes da mente. Mas os sábios triunfam sobre Marae suas hostes e se afastam deste mundo.
O homem falso que desobedece a única Lei, e que mostra indiferença quanto ao mundo do além, é capaz de qualquer maldade.
Em verdade, não alcançarão os malvados o reino celestial, nem os ignorantes serão liberados. Os homens sábios se alegram na generosidade e alcançam um reino mais feliz.
O triunfo do homem que vence a ilusão é melhor que o domínio dos bens terrenos; melhor do que morar nos céus; melhor do que o governo de vastos territórios.”